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Uma partida de xadrez só termina com um dos seguintes resultados: vitória,
derrota, empate. Ganhar e perder não necessitam maiores explicações,
apenas louros e pêsames. Vamos, pois, discorrer sobre o empatar, êmulo do
purgatório.
Em muitas ocasiões, quando deixamos fugir de nossas mãos um jogo ganho,
vemos o empate como uma derrota. Em outras, o enxergamos como uma tábua de
salvação, uma vitória, pois escapamos de perder de uma posição inferior.
O que é o empate? Segundo o Aurélio, empatar no jogo de xadrez significa
chegar a uma posição em que é impossível dar xeque-mate.
Nós, que conhecemos as regras da nobre arte de Caissa, sabemos que esta
definição, senão mentirosa, ao menos é incompleta. O empate no xadrez
pode-se dar em diversas ocasiões, tais como:
a) Afogado: quando um dos lados, sendo sua vez de jogar, não tem
mais nenhum lance válido a executar, o jogo termina por afogo, e, apesar
do lúgubre nome, parece um empate legítimo. Este tipo de igualdade
freqüentemente é fruto da afobação e do mau jogo de um contendor; na
prática desportiva é raro um empate por afogo acontecer como intencional,
planejado como tática de um dos jogadores.
b) Por insuficiência de material:
quando ambos os exércitos
quedaram tão depauperados que não podem pretender à vitória, e que
acontece quando a resistência estóica do rei nu é recompensada com o
cumprimento fraterno de seu igual, também ele desnudo de meritória
companhia.
c) Por repetição de lances: quando o mesmo desenho é repetido três
vezes sobre o tabuleiro, um dos lados pode reivindicar o empate. Para o
jogador que apresenta desvantagem material ou posicional, vale a célebre
frase de Bilbo Bolseiro, o Hobbit Senhor do Anel: “- A terceira vez é
sempre a mais gostosa!”.
d) Por xeque-perpétuo: quando um dos lados, normalmente
inferiorizado em seu jogo, ameaça com xeque o rei adversário “ad
infinitum”. Este tipo de empate é, na prática de torneio, poderosa arma
tática quando estamos em desvantagem e devemos sempre “garimpar” no
tabuleiro a oportunidade de sua ocorrência.
e) A regra dos 50 lances – na verdade, eufemismo para a falta de
iniciativa, quando um dos lados não pode impor sua superioridade de
material, seja pelas condições de jogo ou por mera incompetência, o jogo é
considerado empatado. Também é pouco freqüente em torneios de alto nível.
f) Por combinação entre as partes – por fim chegamos ao mais
importante e controverso dos empates, o de comum acordo entre os
jogadores. É de longe o que mais ocorre entre os mestres, sendo algumas
posições tão complexas que, a nós, leigos, amiúde vezes cabe-nos a difícil
tarefa de visualizar a igualdade entre as peças brancas e negras.
Este empate deveria sempre ocorrer por conveniência dos dois lados, mas,
às vezes, o que é pior, beneficia apenas um jogador.
Num torneio mundial de juvenis, ocorrido algumas décadas atrás, bastava
aos dois contendores o empate para ambos passarem à segunda fase do
campeonato. Sentaram-se, cumprimentaram-se e jogaram poucos mais de uma
dezena de lances de uma linha “manjada” da Ruy Lopez, empatando em
seguida.
Para surpresa deles, entretanto, o juiz principal não aceitou a planilha e
mandou jogarem nova partida, pois o resultado combinado prejudicaria
outros jogadores.
Os dois, tinhosos, sentaram-se, cumprimentaram-se e executaram 1.e4 e5
e disseram que não jogariam mais, estabelecendo grande confusão na
arbitragem do torneio.
É lógico que trata-se de uma questão das regras, que um bom juiz pode
decidir como proceder. Não nos esqueçamos, porém, que o jogo tem um lado
ético, moral, que não pode ser desprezado.
A quem pertence o jogo? Somente aos jogadores? Ao árbitro? À sociedade e
ao mundo em geral? Questões relevantes que devemos encarar de frente.
Muitos dos empates entre mestres ocorrem partindo do pressuposto que o
outro lado não vá errar, que a posição é bastante nivelada para que
deslizes não possam mais ocorrer. Sabemos que, embora raramente, os
grandes jogadores também erram. Ouso dizer “- Quem nunca errou na frente
do tabuleiro, jogue a primeira pedra”.
O lado psicológico do xadrez não pode ser desprezado. Muitas vezes o
empate ocorre por preguiça, medo ou covardia de um dos lados ou mesmo dos
dois. Lembremos que o empate socializa, é coletivo. É a única coisa que os
dois jogadores podem querer e conseguir fazer juntos, além de competir.
Até agora nadamos à superfície dos fatos; vamos mergulhar em águas mais
profundas:
Para a verdade, nada melhor que buscar a etimologia das palavras, que
traduzem, de forma arquetípica, todo seu conteúdo interior. A palavra
empatar vem do latim, e significa fazer um pacto, estabelecer a paz. É um
estado permanente e antônimo do bélico. Por semelhança significa
embaraçar, tolher o adversário, encontrar obstáculo que impeça a vitória
definitiva. Também pode significar investir, empregar, como na frase
“empatou seu dinheiro todo em ações”.
No italiano a palavra empregada para a igualdade no xadrez é “patta”, com
as mesmas raízes latinas e os mesmos significados adjacentes. Como vemos,
trata-se de palavra positiva, representando a paz entre as partes, que
pode ser conseguida mediante acordo mútuo, em sentido diverso da acepção
usada em nosso dicionário, já citado.
Já no francês a palavra usada é “nulle”, ou seja, nulo. Curiosa
utilização, sendo esta língua também de origem latina. Como sabemos, no
xadrez o empate conta ponto (meio) e na maior parte das vezes estes tentos
conseguidos pela igualdade são os que decidem os torneios de múltiplos
contendores. Faço uma ilação, fruto apenas de minha imaginação exacerbada:
sendo a França o país berço de Cyrano de Bergerac (que existiu de fato, e
não apenas na obra homônima e ficcional de Edmund Rostand), de Gargântua e
Pantagruel e dos três mosqueteiros, a expressão “nulle” se justifica. Na
esgrima medieval o combate era até a morte, sendo que o empate era
considerado nulo, ou sem valor para a honra dos lutadores.
No idioma espanhol a expressão usada é “tablas”, que significa mesa, tábua
e também tabela. Vários jogos de baralho utilizam a expressão mesa para
indicar a banca, ou seja, tentos que não vão para nenhum dos contendores.
A tábua de Moisés continha também os dez mandamentos, contendo as regras
que deveriam reger a vida do povo escolhido.
Na língua inglesa a palavra utilizada é “draw”, com o verbo significando,
além de empatar, puxar, tirar, arriscar a sorte ou o destino. O dicionário
Novo Michaelis cita literalmente - "empatar o jogo sem terminá-lo", o que,
de fato, é o que geralmente ocorre. Outra acepção curiosa é espremer,
secar, tirar o líquido (vinho) de um barril, o que remete, por semelhança
onomatopéica, a “dry”, seco. Sendo os ingleses um povo do mar, que se dá
melhor navegando nos oceanos do que em terra firme, penso que o empate
possa ter uma concepção árida, de secura. Delírio, mas quem for ver “O
Mestre dos Mares”, filme ora em cartaz, verá que alguma razão, ainda que
remota, tenho. Quando as idéias secam, vem o empate.
Ainda mais curiosa é a palavra alemã para empate, usada no xadrez, que é
“remis”. De origem aparentemente latina, remir significa libertar,
redimir, perdoar. Assim o empate liberta do quê? A resposta é óbvia, e é
citada no Aurélio: livrar-se de uma situação arriscada, ou seja, da
possibilidade de derrota.
O medo de perder é inato na psique do jogador de xadrez. Eu diria que ele
é o pai de grande parte dos empates. Lógico que insistir em posições
totalmente igualadas é, além da falta de cavalheirismo, burrice; mas
empatar por medo da continuação é falta de inteligência e indicativo de
carater pusilânime.
Uma consideração importante é a avaliação de nosso jogo, e,
principalmente, do adversário. Quando você convida o outro jogador a
empatar (ou quando recebe o convite), você tem que efetuar uma análise do
valor da posição do tabuleiro. Neste momento não importa o passado, quem
tinha a iniciativa, quem tratou melhor a abertura. As peças dispostas
sobre os quadrados negros e brancos contêm a verdade e encerram todos os
significados futuros. Se você avalia de forma distorcida sua posição, na
vida ou no xadrez, sua possibilidade de erro é muito maior.
No seu próximo empate, pense: estou empatando em português, fazendo um
pacto de paz com meu adversário. Ele merece isto? Estou pensando em
francês, e meu jogo será nulo. Eu mereço isto? En garde! Como
capitão desta fragata inglesa, desfraldarei branca bandeira, ou lutarei
até o fim para mandar ao fundo do mar este inimigo galeão? Canhões de
bombordo, preparar. Sendo a filosofia germânica ímpar, estou empatando e
me libertando do quê? Da derrota ou do medo que tenho dela?
Brincadeiras à parte, a Bíblia já dizia que ou quente ou frio, morno
jamais. É atribuída a Bob Fischer a frase que, desde que jogasse com as
brancas, poderia empatar com Deus. Eu muito tenho laborado na vida para
estar em paz com meu Criador, conforme a definição da língua que amo e na
qual modestamente tento escrever.
Para terminar ofereço esta partida publicada originalmente na “Lasker’s
Chess Magazine”, de autoria do Sr. Sam Loyd. Embora fantasiosa, isto é o
que eu chamo de uma partida verdadeiramente empatada:
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