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Eu, um capivara, triunfei em Wijk aan Zee |
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Todos os meus amigos sabem que eu adoro xadrez. Leio as colunas especializadas, acompanho como posso os grandes torneios e freqüento com certa regularidade o Clube, onde tenho a oportunidade de jogar no meio dos iniciantes e veteranos do nobre jogo. O fato de jogar muito , contudo, não significa que eu saiba jogar bem. Consegui grandes amizades sentado na frente do tabuleiro, talvez porque eu viva perdendo. Haroldo, meu companheiro habitual dos jogos de sexta feira, disse-me um dia : "Você é um misto de capivara gorda e pato grasnador". Como eu havia terminado de ganhar um final de torres dele, na nossa nona partida, fazendo o primeiro ponto num match relâmpago de dez rounds, considerei brincadeira. Esta história que agora já posso contar ocorreu muitos anos atrás. Tudo começou quando o Presidente do Clube me chamou para o seu gabinete particular.Isto era tão incomum, tão raro, que eu já fui apalpando o bolso procurando o comprovante de pagamento da última mensalidade, que provava que eu só estava atrasado menos de três meses. Ele me fez entrar, sentamos, e, com certo embaraço, me disse : -"Bem , eu não sei por onde começar, por isto vou diretamente ao assunto. Fui encarregado de te convidar para jogar o Torneio de Hoogovens, em Wijk aan Zee, na Holanda. Eu sei que o torneio é só para mestres, mas já está tudo arranjado para voce ir com o convite especial da organização." Fiquei estupefato. Devia ser uma brincadeira. Disse-lhe que era muito melhor mandar o Milos ou o Sunyê. Ele continuou :
-"Não, é você que
eles querem. A história é a seguinte : um cientista norte americano acaba
de aperfeiçoar um pequeno dispositivo receptor que pode ser instalado
próximo ao ouvido interno de uma pessoa e que permita a ela receber
mensagens radiofônicas emitidas de um transmissor cifrado nas
proximidades.Uma espécie de ponto eletrônico, só que subcutâneo. A patente
tem intenção bélica, mas Bob sempre desconfiou que Spassky usou um na
disputa do último título mundial. Afim de saber se isto é possível, a CIA
autorizou uma experiência secreta que prove a viabilidade ou não de sua
utilização."
"É preciso uma pessoa
que não levante suspeitas, e que tenhamos a certeza se o dispositivo
funciona, e não ela que jogou. Com um Mestre isto seria impossível." -"Está bem, eu topo ! Disse, engolindo o orgulho. O presidente pareceu aliviado. Apertou-me a mão, serviu-me um cafezinho numa xícara de porcelana que estava tão ruim e frio como o costumeiro no salão de jogo plebeu. E eu, que sonhava em jogar na sala envidraçada reservada aos campeonatos de mestres do meu Clube, estava carimbando meu passaporte para jogar um dos mais tradicionais torneios de xadrez do mundo. O resto foi muito rápido. Viajei para os Estados Unidos, onde, numa pequena clínica particular de Boston, um médico, numa pequena cirurgia, em menos de uma hora, me implantou o receptor apropriado. A pequena incisão decorrente sobre a orelha foi logo coberta pelos cabelos, e eu retornei ao Brasil, onde esperei por cerca de três meses. Em novembro recebi uma carta da CBX, em papel timbrado e tudo, me convidando para embarcar para a Holanda, às suas expensas, no mês de janeiro próximo. Para encurtar a história, fui de avião até Amsterdan onde um carro me levou até Wijk aan Zee, um lindo balneário. Fiquei ali dois dias fazendo turismo, hospedado num hotel de cinco estrelas. Na véspera do início do torneio conheci a equipe responsável pela experiência. Chefiando a equipe, Bob Fischer, com um contrato milionário que não o obrigava a "ditar" lances ao microfone emissor. Para ele, era uma espécie de tira teima. Eu, o robot, e para me "manobrar", dois grandes Mestres: o holandês Jan Timman e o inglês Anthony Milles. Completando o pessoal, um engenheiro de som e um médico responsabilizavam-se pela parte técnica da experiência. No dia seguinte eu estava muito nervoso. Já imaginou se o negócio não funcionava e eu fosse obrigado a enfrentar sozinho um GM ? Na minha pobre cabeça eu queria ao menos evitar o pastorzinho, resistir uns vinte lances, se tanto ... Feito o emparceiramento, coube-me iniciar o jogo com o iugoslavo Istvan Farago. Sentei-me na mesa de jogo e quando fomos autorizados, ouvi claramente no meu cérebro o lance recomendado "d4". Deu até para perceber que era a voz do Timman que ditava. Ele e Milles recebiam a imagem de uma micro TV instalada no teto do salão e me davam os lances. Estavam hospedados no quinto andar do hotel onde se realizavam os jogos, cercados de seus livros de aberturas prediletas. Três horas e cinqüenta minutos depois Farago capitulou. Cumprimentou-me gentilmente e saiu da sala. Eu fiquei ainda sentado por cerca de meia hora, até as forças voltarem às minhas pernas. Havia ganho o meu primeiro jogo contra um Grande Mestre, e a única coisa que eu tivera de fazer fora executar os lances no tabuleiro. E eu, que só costumava perder, rapidamente me acostumei a ganhar. Numa sucessão de vitórias liderei o torneio até a última rodada. Havíamos (uso o plural vocês sabem porquê) cedido alguns empates, como com Ulf Andersson, do qual é quase impossível ganhar. Estávamos empatados na liderança por pontos com Rafael Vaganian, justamente aquele com quem faríamos o último e decisivo jogo do torneio. Quando entrei no salão para jogar aquela partida que tudo decidiria, estava muito tenso. Era sábado (portanto Bob não poderia dar uma canja, evidentemente) e eu acabara de receber a notícia que Timman, gripado, havia ficado em seu quarto de dormir. Assim sendo, somente eu e Milles jogaríamos este derradeiro confronto. Eu tinha dúvidas, se ele, sozinho, ainda que com a ajuda dos livros, poderia ganhar do Vaganian, então em ótima fase. A partida foi assim : |
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1.d4 d5 2.Cf3
Cf6 3.c4 e6
4.Cc3 Cbd7 5.e3
Bd6 6.Cb5 Be7
7.Dc2 c6 8.Cc3
Foi nesta altura que aquilo aconteceu, o episódio que pôs tudo a perder. Logo após o lance do cavalo Milles ditou "b4". Preparava-me para pegar o peão quando uma voz esganiçada, débil a princípio, sussurrou na minha cabeça "Bf6". Fiquei aparvalhado.Qual dos dois lances jogar ? Passaram-se alguns instantes. Milles tornou a insistir :"b4", e a mesma voz, como se fôra uma dessas interferências que às vezes escutamos ao telefone, repetiu :"Bf6". Pensei cerca de cinco minutos, e uma gota de suor minha caiu no tabuleiro. Acordado pelo pingo solitário e movido sei lá por quais intenções, mexi o bispo para sua casa fatídica. 23.Bf6 Vaganian pensou cerca de vinte minutos. Milles resmungou, aborrecido, e me disse que jogasse sozinho, que ele iria embora de volta para seu quarto.Foram os minutos mais longos de minha vida. Que fazer, se a voz misteriosa não voltasse ? Sair correndo, fingir um desmaio, inclinar o rei ? Tão logo o russo jogou 23...Tfc8 a voz voltou, salvadora, e o jogo continuou assim: 24.De5 Tc5 25.Dg3 g6 26.Txa4 Dd3 27.Tf1 Df5 28.Df4 Dc2 29.Dh6 |
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Quando eu coloque minha dama na coluna "h" a voz se despediu - "Um dia, eu fui Alekhine!" . Vaganian, perplexo, me deu a mão.Eu cumprimentei-o e senti as pernas bambas. Afinal, quem tinha ganho a partida ? Fui para o meu quarto, não consegui dormir nem comer nada. Na manhã de domingo quando desci para o "brunch" a equipe estava toda reunida. Mal apareci na escada Bob disparou -"Boa , garoto, nós, americanos, mostramos a estes russos que sabemos mexer bem as peças. Que linda combinação." – Milles me olhou, ressentido, e me estendeu a mão num cumprimento formal. De lá , voltei para os Estados Unidos para a retirada do dispositivo. Fui recebido na volta ao Brasil pelo presidente do meu Clube, que me deu um seco "Parabéns" e acrescentou, amuado -"Pena que a experiência foi arruinada. Ninguém sabia que você jogava tão bem." E eu, que ganhei a taça, o prêmio e a fama, resolvi parar de jogar xadrez enquanto estou por cima, pois até hoje não sei quem ganhou a partida : Milles, eu, ou Alekhine ? Tal e qual Tartarin de Tarascon, recolhi-me às glórias passadas. Bem que eu gostaria que a tal voz esganiçada retornasse, mas ela nunca mais voltou. Meu rating despencou, perdi a maioria dos meus amigos, e tenho de me contentar em jogar às vezes, com o Haroldo, que, aliás, é o único que desconfia ainda de alguma coisa, porque continua a ganhar a maioria esmagadora das partidas que jogamos. Depois da publicação desta história, ele vai entender tudo. Tenho certeza de que vai querer olhar as minhas orelhas procurando a cicatriz, que, por sinal, ainda tenho.
Ivan Carlos Regina é escritor de ficção científica com vários livros publicados. Paulista de Bauru, trabalha no planejamento do transporte público da cidade de São Paulo. Apaixonado pela deusa Caíssa, diz ele que joga tão mal que sua vingança é escrever crônicas inverossímeis sobre o nobre jogo! |